o [+zero] desenvolve, basicamente, procedimentos de criação relacionados com a arte computacional. denominamos arte computacional o conjunto de práticas artísticas desenvolvidas a partir de métodos de programação e automatização que utilizam o aparelho computacional como mediador, através de suas características lúdicas, fundamentalmente voltadas ao jogo.
o termo "jogos" descreve toda a produção do [+zero]. produção que se dá de maneira lúdica e absolutamente despreocupada, com apenas algumas regras básicas em número reduzido. estar de acordo com tais regras é jogar o jogo proposto.
o aparato computacional sempre foi o elemento central, agregador, dos jogos concebidos pelo [+zero], interessados sempre no desenvolvimento de um repertório difuso, descentralizado e não hierarquizado. o jogo básico proposto é marcado por uma tensão primordial entre o que está já programado ideologicamente no cerne do aparelho computacional e a desordem a ser introduzida pela perspectiva da práxis artística, que permeia a construção de sentido neste jogar.
trata-se de jogar onde o que se busca é a perda do solo rígido e protetor que o aspecto simbólico da linguagem parece assegurar. é um jogar contra a linguagem portanto. contra a linguagem do aparelho e contra a percepção automatizada que o aparelho traz ideologicamente inscrita, marcada em seu núcleo. a introjeção da desordem no aparato computacional processa-se conceitualmente através do entendimento da arte como coisa que ocupa o espaço primeiro da liberdade, situando-a na esfera da cultura limiar entre a subjetividade das proposições do [+zero] e a intersubjetividade com o jogo entre o aparelho e entre quem contempla e transforma as obras.
com respeito ao aspecto de coisa da arte, heidegger (2008:12-13) esclarece dizendo: "toda a gente conhece obras de arte. encontram-se obras arquitectónicas e pictóricas nas praças públicas, nas igrejas e nas casas. nas colecções e exposições, acham-se acomodadas obras de arte das mais diversas épocas e povos. se considerarmos nas obras a sua pura realidade, sem nos deixarmos influenciar por nenhum preconceito, torna-se evidente que as obras estão presentes de modo tão natural como as demais coisas. o quadro está pendurado na parede, como uma arma de caça, ou um chapéu. um quadro como, por exemplo, o de van gogh, que representa um par de sapatos de camponês, vagueia de exposição em exposição […]. os quartetos de beethoven estão nos armazéns das casas editoras, tal como batatas na cave. todas as obras tem esse carácter de coisa (das dinghaft). o que seriam sem ele? mas talvez fiquemos surpreendidos com esta perspectiva assaz grosseira e exterior da obra. em perspectivas destas a respeito da obra de arte podem mover-se o vigia e a mulher a dias do museu. há que considerar as obras tal como se deparam aqueles que delas tem a vivência e as apreciam. mas também a muito falada experiência estética não pode contornar o carácter coisal da obra de arte. há pedra no monumento. há madeira na escultura talhada. há cor no quadro. há som na obra falada. há sonoridade na obra musical. o carácter de coisa está tão incontornavelmente na obra de arte, que deveríamos até dizer antes ao contrário: o monumento está na pedra. a escultura está na madeira. o quadro está na cor. a obra da palavra está no som da voz. a obra musical está no som"
o jogo quando relacionado à experiência da arte em geral não é algo externo a esta, mas está no centro da produção e da fruição da obra de arte, aspectos que constituem um só, já que fazer e apreciar se confundem no jogar. o jogo, como dado fundante da obra de arte, é independente do comportamento, do estado de ânimo ou da própria subjetividade de quem participa como jogador. identificamos assim o caráter independente do jogo e, por decorrência, da arte. o jogo não está condicionado por quem o joga, e muito menos determinado pelo jogador. seu caráter autônomo dispensa a presença de um outro sujeito para existir. os jogadores apenas asseguram a representação da instância maior que é o jogo em si. para tornar mais clara esta questão relacionada ao caráter do jogo, devemos ressaltar que este, essencialmente, é puro movimento desprovido de alvo, de meta, que estabelece-se em forma de eterno retorno, ritual mágico onde não existe nenhuma lei de causalidade baseada em um relacionamento de causa/efeito. é movimento por si mesmo, independente, inclusive, de quem o executa ou o observa. Não há necessidade sequer de um sujeito fixo para sua existência e manutenção: o jogo é a realização do movimento como tal.
este site diz respeito a estes jogos:
HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Lisboa: Edições 70, 2008.

