A meta-natureza: A natureza meta-real: A natureza mais natural do que o próprio natural.
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Nos dias correntes é lugar comum a afirmação de que o homem, há muito tempo atrás, deixou de pertencer a natureza e que esta encontra-se, consequentemente, cada vez mais afastada do homem. Os lugares naturais encontram-se afastados e cada vez menos acessíveis. Apenas uma elite extremamente bem preparada tecnicamente e psicologicamente tem acesso a eles. A comunhão com o natural é algo distante do homem médio, que cada vez mais encontra nos processos industriais, em crescente procedimento de personalização e individuação – o que nos leva a duvidar da aplicabilidade contemporânea do termo “industrial” –, os substitutos para a natureza. A artificialidade tornou-se o elo de ligação entre o homem médio e a natureza, praticamente encoberta pela meta-natureza, a natureza meta-real: A natureza mais natural do que o próprio natural. Enquanto o mundo selvagem – natureza – é extremamente perigoso e, por que não?, nocivo ao homem, a meta-natureza apresenta-se como seu habitat natural. A meta-natureza encontra, como não poderia deixar de ser, suas fundações em dois pilares cada vez mais sólidos, embora sejamos forçados a acreditar, cotidianamente e erroneamente, que tais pilares são cada vez mais frágeis. Obviamente todos sabemos, com um esforço cada vez menor, quais são estes sólidos pilares: Tratam-se da cultura e da civilização. Estas são as fundações do meta-real, o real mais real do que o real, e da meta-natureza que encontram-se apoiados em uma base ainda mais nuclear: A linguagem. É ela, certamente, a essência, conceito meta-físico, da meta-natureza. Abandonamos a natureza para vivermos na mediação da linguagem que erigiu a cultura e a civilização, pilares que prosseguem em expansão desenfreada: Meta-natureza. O objetivo da meta-natureza, cada vez mais bem sucedido, é criar um contexto completamente humano, distanciado da natureza pela cultura e pela civilização. Este contexto é um constructo de linguagem. Para tanto a natureza precisa estar confinada, afastada, avistada somente a partir de uma distância segura pela lente da linguagem. A linguagem tudo artificializa e, portanto, o homem é artificial e por isso para a civilização a cultura é a verdadeira, a meta, natureza. Todos os produtos verdes, livres de gluten, todos os exercícios feitos em academias de ginástica, as corridas pelas cidades com contemporâneos equipamentos e acessórios sofisticados, os combates químicos aos insetos e roedores, a assepsia e limpeza, a pavimentação, os animais de estimação escovados, amados e alimentados com meta-alimentos, os alimentos do meta-real, alimentos mais alimentares do que os próprios alimentos, as idas aos zoológicos, aquários e os safaris, a comunicação mediada por dispositivos técnicos, o deslocamento motorizado e a reciclagem e separação do lixo são apenas alguns dos infinitos índices da condição meta-natural que tão bem faz ao homem. Nota-se, por fim, que o meta-natural traz uma nostalgia do natural, despertando no homem uma meta-consciência que o faz desejar valorizar o natural quando se aproxima dele através das sofisticadas elaborações do meta-natural. É assim que a verdadeira beleza meta-física continua pertencendo ao inatingível natural, acessado sempre pelos tentáculos do meta-natural.

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