entendendo as experiências que envolvem o áudio visual como sendo constituídas, centralmente, por
linguagens híbridas, sendo portanto índices da contemporaneidade, o projeto +zero pretende incorporar signos áudio verbo visuais em
estruturas labirínticas, tendo como base criativa métodos de
recombinação – como conceito aglutinador de ruídos –, em processos abertos ao
acaso. tomamos aqui o acaso como sendo o criador do cosmos. ou seja, desencadeador de processos evolutivos onde a ordem não é simplesmente instaurada, mas sim evolui a partir de um caos inicial. os meios áudio visuais não servem somente para contar histórias. para tal existe o romance. o teatro. o projeto +zero cria experiências áudio visuais
indeterminadas, buscando promover a experimentação coletiva. partindo do zero e para ele retornando, em um loop que se refaz constantemente, em um diálogo autofágico entre o virtual e o atual. nada é absoluto, porque tudo está em evolução. desta forma, abolimos o já abolido conceito de manifesto moderno e incorporamos, como em uma espiral, repertórios, idéias e conceitos que transitam não em processos de contemplação, mas sim em processos de
devoração.
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LINGUAGENS HÍBRIDASa hibridização já é dado constituinte de todas as linguagens, pois
"quando se trata de linguagens existentes, manifestas, a constatação imediata é a de que todas as linguagens, uma vez corporificadas, são híbridas […] na realidade, cada linguagem existente nasce do cruzamento de algumas submodalidades de uma mesma matriz ou do cruzamento entre submodalidades de duas ou três matrizes[1]. quanto mais cruzamentos se processarem dentro de uma mesma linguagem, mais híbrida ela será. desse modo, por exemplo, a linguagem verbal oral, a fala, apresenta fortes traços de hibridização tanto com a linguagem sonora quanto com a linguagem visual na gestualidade que a acompanha. a arquitetura, nos seus aspectos rítmicos e harmônicos, também se entrelaça com a sonoridade, além de ser visual e tátil, dentre todas as linguagens a mais visualmente tátil. entrelaçam-se ainda com a sonoridade, devido à sintaxe temporal que as caracteriza, todas as formas de linguagem visual em movimento (cinema, tv, vídeo e computação), assim como se entrelaçam com diversas submodalidades de discurso verbal, a narrativa principalmente, devido ao conteúdo diegético com que narrativa recheia o vetor temporal que é próprio da sonoridade. portanto, sob o ponto de vista das matrizes da linguagem e pensamento, linguagens concretizadas são na realidade corporificações de uma lógica semiótica abstrata que lhes está subjacente e que é sustentada pelos eixos da sintaxe na sonoridade, da forma na visualidade e pela discursividade no verbal escrito" (santaella, 2001:379).
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[1] a saber: a matriz sonora, a matriz visual, a matriz verbal.
SANTAELLA, Lucia. Matrizes da linguagem e pensamento Sonora Visual Verbal. São Paulo: Iluminuras, 2001.
ESTRUTURAS LABIRÍNTICAS"os labirintos são imagens que persistem na história da humanidade há milênios. essa longa, contínua e mutante permanência nos revela questões profundas do pensamento humano. mais do que o senso comum costuma definir, os labirintos são signos de complexidades. talvez, o maior encanto dos labirintos resida no fato de eles próprios serem paradoxais e proporem, cada um à sua maneira, lógicas contrárias e diversas. quando se fala em labirintos, é bom lembrar que, além das construções humanas, existem também os labirintos naturais. entre eles, as grutas e as cavernas que, com suas passagens estreitas, nos propõem dificuldades de percurso; as conchas, imagens exemplares do tema da espiral, outra fonte fecunda de divagações e devaneios; as flores, e suas construções mandálicas, as folhas, as raízes e os rizomas. o labirinto está presente em nosso próprio corpo em muitos de seus órgãos, tais como o cérebro, o ouvido e até mesmo na impressão digital, marca única de nossa identidade" (leão, 2002:17).
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LEÃO, Lucia (org.). INTERLAB Labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Iluminuras, 2002.
RECOMBINAÇÃOo plágio é um elemento criativo central nos processos de recombinação. é preciso esclarecer o que é o plágio:
"o plágio tem sido há muito considerado um mal no mundo cultural. tipicamente, tem sido visto como um roubo de linguagem, idéias e imagens executado pelos menos talentosos, freqüentemente para o aumento da fortuna ou do prestígio pessoal. no entanto, como a maioria das mitologias, o mito do plágio pode ser facilmente invertido. […] talvez as ações dos plagiadores, em determinadas condições sociais, sejam as que mais contribuiem para o enriquecimento cultural. […] atualmente, têm surgido novas condições que mais uma vez fazem do plágio uma estratégia aceitável, e mesmo crucial, para a produção de textos. esta é a era do recombinante: corpos recombinantes, gênero recombinante, textos recombinantes, cultura recombinante. olhando para o passado através do enquadramento privilegiado da percepção retrospectiva, pode-se argumentar que o recombinante sempre foi fundamental no desenvolvimento do significado e da invenção: recentes e extraordinários avanços na tecnologia eletrônica chamaram a atenção para o recombinante tanto na teoria quanto na prática" (critical art ensemble, 2001:83-84).
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CRITICAL ART ENSEMBLE. Distúrbio eletrônico. São Paulo: Conrad, 2001.
ACASO"como princípio, ele [o acaso] é um modo de ser correlacionado com a irregularidade e a assimetria atinentes com o que está imediatamente presente nos fatos. provisoriamente, pode-se tomar a concepção de acaso como o modo de ser de uma distribuição fortuita, a exemplo daquela obtida em qualquer experimento equiprovável, como o é um jogo de dados. neste tipo de jogo, sabemos que não há razão para apostarmos num resultado mais que em outro. tal crença fundamenta-se no fato de que há independência entre cada um dos resultados, fazendo com que um evento particular não decorra do anterior, nem forneça condições para a definição do próximo. a este modo de ser, que confere liberdade para o ato de cada particular, denominamos acaso […] como uma propriedade de uma distribuição, acaso é alguma coisa geral, desvestida, porém, da necessidade lógica que caracteriza a tessitura de uma lei. nada faz necessário um lance de dados ser aquele e não outro. há, assim, sob o ponto de vista modal, que se associar as idéias de acaso e possibilidade. o que é meramente possível está, de outro lado, associado à idéia de liberdade e espontaneidade" (ibri, 1992:39-40).
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IBRI, Ibo Assad. Kósmos Noetós. São Paulo: Perspectiva, 1992.
INDETERMINAÇÃOa indeterminação é integrante da base conceitual de tudo que se dá por meio de processos criativos, já que
"como conceber a criatividade humana ou como pensar a ética num mundo determinista? esta questão traduz uma tensão profunda no interior de nossa tradição, que se pretende, ao mesmo tempo, promotora de um saber objetivo e afirmação do ideal humanista de responsabilidade e de liberdade. a democracia e as ciências modernas são ambas herdeiras da mesma história, mas essa história levaria a uma contradição se as ciências fizessem triunfar uma concepção determinista da natureza, ao passo que a democracia encarna o ideal de uma sociedade livre. considerarmo-nos estrangeiros à natureza implica um dualismo estranho à aventura das ciências, bem como à paixão de inteligibilidade própria do mundo ocidental. […] pensamos situar-nos hoje num ponto crucial dessa aventura, no ponto de partida de uma nova racionalidade que não mais identifica ciência e certeza, probabilidade e ignorância. […] assistimos ao surgimento de uma ciência que não mais se limita a situações simplificadas, idealizadas, mas nos põe diante da complexidade do mundo real, uma ciência que permite que se viva a criatividade humana como a expressão singular de um traço fundamental comum a todos os níveis da natureza" (prigogine, 1996:14).
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PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: Editora Unesp, 1996.
DEVORAÇÃOo espaço digital em rede nega a mera contemplação como via de fato, sendo um enorme buraco negro que engole e devolve dados, possibilitando a reversibilidade. cada integrante desta grande comunidade passa a absorver os conhecimentos de seus pares, incorporando-os de forma crítica ao seu repertório, constituindo uma espécie de “canibalismo digital”, fazendo analogia aos conceitos usados por ribeiro (1997:47), quando coloca em uma perspectiva antropológica os rituais canibalistas praticados pelos índios brasileiros:
"um guerreiro lutava, bravo, para fazer prisioneiros, pela glória de alcançar um novo nome e uma nova marca tatuada cativando inimigos. também servia para ofertá-lo numa festança em que centenas de pessoas o comeriam convertido em paçoca, num ato solene de comunhão, para absorver sua valentia, que nos seus corpos continuaria viva".
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RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.